02/11/2012

Qual raça é melhor para seus cordeiros?

Se aqueles, cujo negócio é vender reprodutores não reagirem, ofertando bons animais, serão os compradores (produtores de carne) que vão estabelecer caminhos próprios.

Quando se fala sobre produção de carne de carneiro, é fácil notar que não há uma definição clara e precisa sobre quais são os materiais genéticos mais propícios para produzir um ou outro tipo de cordeiro em particular. Se justamente aqueles cujo negócio é vender reprodutores não reagem e brindam os compradores com certificados, mensurações, documentos, etc., então deverão ser os produtores que, um dia, começarão exigir “qualidade” certificada.

A verdade é que, se um cabanheiro (de qualquer raça) não tem elementos certeiros para assegurar que tal animal é melhor que outro, todos seus carneiros deveriam valer o mesmo preço! Ninguém deveria pagar mais por um reprodutor somente por conta do pedigree, rosetas e atributos visuais que o animal tenha.

Toda raça faz propaganda de si mesma como se fosse a melhor do universo, mas o bom cordeiro ou cabrito é a soma de “região + situação”, o que exige muita mensuração e documentação sobre o reprodutor a ser escolhido com finalidade de conduzir o rebanho para progênies lucrativas.


O Merino Australiano vale o mesmo que um reprodutor de carne?

A pergunta é muito válida quando se observa o crescimento que vem tendo o Merino Australiano no Uruguai e o declínio ao mesmo tempo, principalmente, pela raça Corriedale. Sem dúvida, no que se refere à produção de carne não existe uma definição clara e precisa sobre qual raça é mais adequada para um ou outro tipo de cordeiro em particular. Há três constatações:

1 - Em parte, essa indefinição acontece, pois o complexo industrial da lã é o mesmo que da carne, vendo-se que sempre houve evidente privilégio para a lã sobre a carne.
2 - Em segundo lugar, no caso da fibra, os sinais modernos são claríssimos: se alguém quer obter mais dinheiro pela mesma quantidade de lã, tem que produzir lã cada vez mais fina. Existem ferramentas ao alcance de todos os produtores tanto para produzir lã mais fina como para produzir mais carne, com documentação confiável.

3 - Uma terceira e última diferença entre as duas produções mais importantes do Uruguai é a estratégia seguida pelos produtores de Merino diante das raças de carne. Embora criadores de Merino tenham apostado fortemente em programas de melhoramento genético há muito tempo (Flock Testing, hoje abreviado apenas para DEP). Eles utilizam e vendem seus reprodutores com garantia de “melhoradores” tanto para seu próprio rebanho como para muitos outros. Enquanto isso, os cabanheiros de raças de carne participam de concursos de cordeiros gordos, onde técnicos determinam na base do “olho por cento” o melhor lote ou o melhor animal de corte.

Ocasionalmente, sucede que o vencedor nem sequer pode vender um caminhão de cordeiros por ano, por falta de fêmeas suficientes para encarneirar. Qual pode ser, então, a pressão de seleção nessas cabanhas? Obviamente não são os questionáveis critérios de melhoramento! Em suma, outras cabanhas apresentam em alguma exposição os reprodutores com leituras ecográficas indivuais e sem referência a componentes ambientais (tipo de parto, habilidade materna, idade exata do animal, etc. - pois evidentemente não controlam tais dados). Tudo isto, portanto, serve para confundir alguns desavisados que pretendem fazer comparações entre animais que são, na verdade, incomparáveis.


O que têm feito as raças de maior potencial de carne no Uruguai?

“O hombem que muda pode se equivocar, mas o que não muda, vive equivocado” - esse é um magistral provérbio de Mário Azzarini em “lições” da nacionalidade uruguaia. Provérbio também traduzível ao que, na atualidade, se faz (ou não se faz) para difundir e melhorar as raças chamadas “de carne” no Uruguai.

Algumas destas raças são de longa data (Southdown, Hampshire Down), outras de menor antiguidade (Texel), algumas bem recentes (Ile-de-France, Suffolk) e outras muito recentes (Poll Dorset, Composto Terminal, Highlander e Dorper).

Quase nenhuma destas raças, deixando de lado as de introdução mais recente, tem promovido de forma inteligente as virtudes dos cruzamentos na produção de carne e a enorme gama de alternativas produtivas no que se refere à possibilidade de produzir diferentes tipos de cordeiros, bem como à superioridade no uso de raças lanadas ou de duplo propósito.

- Por exemplo, se o objetivo é um cordeiro leviano e bem terminado, ou mesmo um cordeiro pesado moderno, as raças mais adequadas no tocante à velocidade de terminação seriam Hampshire e Southdown.

- Por outro lado, Poll Dorset e Suffolk adaptam-se à produção de um cordeiro superpesado e magro, em sistemas de comida suficiente.

- Nesse enfoque, as raças Ile-de-France e Texel seriam mais “flexíveis” no sentido de indicar o tipo de cordeiro a ser produzido.

- Não dispomos de informação das raças mais recentes, principalmente a Dorper, escudando-nos, porém, na farta literatura internacional. A priori, não convém descartar nenhuma hipótese, sem testá-la.

Por sorte, nem tudo é negativo! Nos últimos três anos a raça Texel integrou-se (pelo menos boa parte das propriedades) ao Programa de Melhoramento Genético que o INIA e o SUL promovem em todas as cabanhas laneiras do Uruguai. O Programa já instalou em Cerro Largo uma Central de Prova de Progênie, de onde se espera que - com o correr dos anos - possa oferecer reprodutores melhoradores garantidos e fazer comparações entre os reprodutores de diferentes propriedades. Também, eventualmente, fazer importações de genética que realce o papel da Sociedade de Criadores. Houve movimentos em outras raças, mas até onde se sabe, foi gerada pouca informação genética para exemplares de carne. Quase tudo praticamente somente para o Texel. Por isso, agora, alguém pode perguntar como fazer para escolher os melhores reprodutores de carne? Primeiramente, é preciso ter em mente que o objetivo é produzir mais carne e, ao mesmo tempo, uma lã mais fina. Pensando na saúde humana, podia se complementar com exigência de uma carne com menos gordura. Já na área reprodutiva, espera-se que tais reprodutores melhorados não ocasionem problemas de partos.


Quais são os critérios mais apropriados para estes objetivos?

Não há nenhum indicador - nenhum! - que seja mais relacionado com a quantidade de carne no gancho que o Peso Vivo. Então, cabe perguntar: por que observar o comprimento do animal, sua altura e sua profundidade?

São medidas (tanto subjetiva, como objetivamente) relacionadas, sim, com a quantidade de carne, mais muito menos que o Peso Vivo.

Tampouco não existe indicador - nenhum! - mais preciso, não invasivo e mais associado com a quantidade de cortes de alto valor que a medida ecográfica realizada por um técnico. Então, cabe perguntar: por que perder tempo observando a largura do quarto? Com a mesma imagem ecográfica mede-se, precisamente, a quantidade de gordura em todo o animal e também a espessura da gordura.

Adicionalmente é possível ter o registro de parição desse reprodutor, com a medição de peso ao nascer (indicador indireto mais importante em determinar a sobrevivência do cordeiro) e também o tipo de parto, dada a importância capital que os gêmeos têm em qualquer sistema de produção de carne ovina.

Também leituras de ovos nas fezes (OPG) podem ser feitas: é o melhor indicador para selecionar os reprodutores que deixam descendência menos susceptíveis, ou mais resistentes aos parasitos gastrointestinais.

Não é suficiente apenas medir tudo isto, sem antes verificar que os animais estejam em iguais condições de manejo, alimentação, sanidade e, ademais, corrigidos pelo tipo de criação (borrega, ou ovelha), de parto (único, de gêmeos, de trigêmeos) e da idade exata no momento da anotação. Afinal, quando se medem vários animais - mesmo afirmando que não foi de propósito - inevitavelmente acabam sendo comparados. Obviamente, o dado individual não serve para nada; ele precisa estar referenciado a um universo. Em genética quantitativa, a população de referência é fundamental.

É muito importante realçar que nenhuma destas coisas é verificada nas exposições. Por isso, o valor da exposição como indicador de evolução genética é uma interrogação total. Na verdade, os comentários de alguns colegas (juízes) sobre a evolução genética não são mais que uma pura presunção.


Se as características de carne são tão variáveis, vale a pena perder tempo em medi-las?

Decididamente, sim. Há um excesso de pesquisas estrangeiras sobre o assunto, mas também entre carneiros de algumas raças que já estão no Uruguai e com as que temos trabalhado na EEMAC desde 1996 até hoje. Por exemplo: temos encontrado diferenças em uma mesma raça, de até 4 a 5 kg no peso de carcaça, tanto a mais, como a menos, referindo-se ao melhor e ao pior genearca utilizado.

Fazendo as contas desse valor a um rebanho de 350 cordeiros (equivalente, mais ou menos, a um caminhão grande de cordeiros pesados, tosquiados, para o frigorífico) e, considerando que esse carneiro transmite a metade de seus genes (a outra metade é da mãe), sua descendência estará 2,5 acima do outro que foi o “pior”, quando ambas progênies têm a mesma idade. Traduzindo em moeda, este caminhão rendeu 1.540 dólares a mais, somente por ter escolhido um reprodutor provado.

Imagine se o mesmo reprodutor também apresentasse um índice de partos distócicos igual a zero! Ora, o pior reprodutor manteria o índice de 8% de perdas em problemas de partos que poderiam ser evitados.

Assim, o único comentário que pode ser feito é que há extrema necessidade de medir para decidir corretamente.


Pensando em voz alta

Uma das coisas que um notável professor deixou gravada em sua passagem pela carreira agronômica, mais concretamente na cátedra de Solos, foi que “as raízes vão até a água e não a água até as raízes”.

Se aqueles, cujo negócio é vender reprodutores não reagirem, ofertando bons animais, serão os compradores (produtores de carne) que vão estabelecer caminhos próprios para a escolha. Devido a isso, todos os anos, em nossas aulas de Curso de Ovinos e Lã, na EEMAC, não cansamos de dizer aos estudantes que, se um produtor não consegue dar segurança sobre a excelência dos reprodutores que vende, a não ser rosetas de exposições, então todos os “descartes” poderiam ter o mesmo valor.

Bem diz José Larralde, escritor: “Embora haja luz em todas as partes, alguns vivem no escuro”. Na realidade, alguns até cultivam a escuridão para poder tirar maior proveito dos ingênuos.

Revista O Berro - Gianni Bianchi - é Eng. Agrôn. (Ph. D.), no Uruguai.
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